D.O

Formação de Jovens Gestores: Desafios e Caminhos Práticos

Desenvolver jovens gestores é uma das apostas mais estratégicas que uma organização pode fazer: esses profissionais trazem energia, novas perspectivas e agilidade — qualidades essenciais em ambientes voláteis —, mas precisam de suporte estruturado para transformar potencial em liderança consistente. Sem esse suporte, o risco é real: decisões mal calibradas, perda de credibilidade, turnover acelerado e impacto negativo no engajamento das equipes. Por isso, investir cedo reduz custos futuros e cria uma pipeline de liderança alinhada à cultura da empresa.

Os obstáculos que jovens gestores enfrentam têm raízes previsíveis. Muitos chegam à liderança com credibilidade percebida menor do que a de membros mais experientes da equipe, o que exige trabalho para conquistar autoridade sem sacrificar relacionamentos. A comunicação e a habilidade de mediar conversas difíceis costumam ser pouco desenvolvidas: dar e receber feedbacks, negociar prioridades e conduzir 1:1 são práticas que raramente aparecem no dia a dia antes da promoção.

A dificuldade em delegar é outra barreira frequente — o desejo de provar competência combinado à falta de técnicas de priorização leva ao microgerenciamento e à sobrecarga. Além disso, jovens gestores tendem a ter visão estratégica limitada porque estavam mais focados em entregas operacionais e tiveram pouca exposição a decisões de alto nível. Gestão de conflitos, navegação política e resiliência emocional também aparecem como lacunas: pressão por resultados, síndrome do impostor e ausência de redes de apoio podem comprometer desempenho e bem-estar. Por fim, em muitas organizações faltam modelos claros e programas formais de mentoria ou sucessão, o que transforma a jornada em um aprendizado por tentativa e erro.

A boa notícia é que há caminhos práticos e mensuráveis para mitigar esses riscos. Programas eficazes combinam aplicação prática, aprendizagem multimodal e medições claras. O desenvolvimento deve ser entendido como processo contínuo — não um evento pontual — e precisa estar atrelado ao trabalho real do gestor. As intervenções que mais entregam resultado costumam unir onboarding de liderança com metas claras, mentoria formal, coaching focado em comportamentos, treinamentos práticos com role-plays e projetos stretch que forçam a visão multifuncional.

Um onboarding bem desenhado nas primeiras doze semanas, por exemplo, reduz a curva de incerteza: alinhamentos com stakeholders, um mentor sênior e um plano de 90 dias com entregáveis ajudam o novo gestor a construir credibilidade rapidamente e a direcionar esforços para o que realmente importa.

Mentoria e coaching têm papéis diferentes e complementares: mentores sêniores orientam sobre política organizacional e carreira, enquanto coaches trabalham comportamentos específicos com ciclos curtos e objetivos concretos — por exemplo, melhorar a qualidade das 1:1s, delegar com clareza ou aperfeiçoar a habilidade de dar feedback. Os treinamentos devem ser práticos e aplicáveis: oficinas de facilitação, mediação de conflitos, gestão de desempenho e priorização, sempre com casos reais da empresa e planos de ação pós-treinamento.

Já o job rotation e projetos stretch expõem jovens gestores a outras áreas e a stakeholders variados, acelerando a construção da visão estratégica. Ao mesmo tempo, comunidades de prática e grupos peer-to-peer oferecem espaço seguro para troca de experiências, normalização de dificuldades e aprendizagem colaborativa.

Para garantir que o investimento gere retorno, é preciso medir. KPIs relevantes incluem retenção dos jovens gestores (especialmente nos primeiros 18 meses), índice de engajamento das equipes que eles lideram, NPS de liderança avaliado pela equipe, progresso nos Planos de Desenvolvimento Individual (PDI) e melhorias em avaliações 360º nas dimensões comportamentais. Medir apenas resultados financeiros de curto prazo é um erro comum; sem métricas comportamentais, fica impossível saber se a cultura de liderança está sendo construída de forma sustentável.

Existem também riscos e armadilhas operacionais que merecem atenção. Treinamentos isolados, sem aplicação imediata, produzem pouco impacto. Mentoria sem estrutura transforma-se em conversas informais que não geram evolução mensurável. Promover rápido demais, sem suporte, aumenta a probabilidade de fracasso e pode gerar danos à moral do time. E, crucialmente, negligenciar a segurança psicológica faz com que jovens gestores evitem riscos produtivos e deixem de experimentar soluções inovadoras — o que empobrece o aprendizado.

O papel da liderança sênior é determinante: patrocinadores executivos precisam demonstrar compromisso, proteger os novatos de consequências desproporcionais por erros e modelar um ambiente de feedback contínuo. Quando líderes seniores se envolvem ativamente — seja como sponsors de projetos stretch, seja participando de painéis de mentoria — o programa ganha legitimidade e acelera resultados.

Na prática, um plano de desenvolvimento de 90 dias costuma funcionar bem como marco inicial: nas primeiras semanas o gestor mapeia expectativas com os principais stakeholders, define três metas críticas e recebe um mentor e um buddy; no primeiro mês participa de workshops práticos e passa por um 360º rápido; no segundo mês inicia coaching focado em delegação e assume um projeto curto e multifuncional; no terceiro mês há uma avaliação intermediária com métricas de progresso e definição dos próximos passos para educação continuada, novas rotações ou aprofundamento em habilidades específicas. Esse ciclo se repete e se ajusta conforme a evolução.

Em resumo, transformar jovens profissionais em gestores competentes exige um programa integrado que combine aprendizagem aplicada, suporte relacional, exposição estratégica e medições claras. O maior retorno vem de organizações que aceitam o aprendizado por tentativa e erro, protegem seus gestores em formação e alinham expectativas com entregáveis claros.