O período da ditadura militar é marcado pela censura e opressão da voz do povo. Condições que viam necessárias as manifestações de artistas que criticavam os “valores e princípios” dos militares. A repressão artística começou logo após a instauração do regime, seu papel sendo silenciar qualquer forma de liberdade de expressão e oposição. Em 1968, a aprovação do Ato Institucional Número Cinco (AI-5) exacerbou significativamente o poder do governo. Na arte, isso se manifestou na censura prévia de obras que possam ameaçar os objetivos dos militares, além de, com a suspensão do Habeas Corpus, a negação do direito de qualquer indivíduo de recorrer à justiça após ser preso por motivos politicamente incentivados. Muitos artistas foram caçados para fora do país, sequestrados, torturados, ou simplesmente negados de publicar suas obras de maneira alguma.
Obviamente, nada disso impediu a voz do povo de ser expressada. E, apesar da repressão, o período também foi marcado por intensa produção cultural e artística, um exemplo sendo o movimento “Tropicália”.
O Tropicalismo surgiu por volta de 1967 como um movimento cultural com foco na música, mas que também influenciou o teatro e a literatura. O grupo era liderado por artistas populares como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Gal Costa e Os Mutantes (Rita Lee, Arnaldo e Sérgio Baptista). O movimento seguiu contra as tradições conservadoras dos militares, incorporando elementos de diversas culturas internacionais (como as guitarras elétricas e o rock psicodélico de “Sgt. Pepper’s” dos Beatles) os misturando com o samba, bossa nova e sertão.
A fusão de estéticas e as letras provocativas e reflexivas criticavam o purismo cultural e o autoritarismo político. Eles criaram uma linguagem inovadora que escapava da censura direta e promovia a reflexão crítica de forma indireta. Embora não fosse um movimento diretamente político no sentido clássico, o Tropicalismo desafiava as estruturas de poder através da arte. Sua influência se espalhou por gerações de artistas e ajudou a formar uma consciência crítica em tempos de repressão.
O movimento não viu muito tempo de vida. Com endurecimento da ditadura depois da assinatura da AI-5, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos por alguns meses em 1968 e, posteriormente, foram exilados para Londres, onde permaneceram por algum tempo. Outros membros seguiram carreira solo. Isso enfraqueceu o grupo, que viu um desmonte gradativo até se desfazer completamente.
Esse ato institucional corroeu a cultura brasileira, e promoveu a criação de arte alienada aos valores militares. Também contribuiu com a autocensura dos artistas, que criavam evitando os assuntos polêmicos e importantes da época. Graças a resistência, lembraremos da arte dessa época como corajosa, astuta e revolucionária.